20/03/17

LEITURAS À VISTA N.º 11

          Para a 11.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Fuzileiros em África - Comissão em Moçambique 1964-1966", redigido pelo Cte. Maxfredo Ventura Costa Campos, edição de autor.






































          Este livro para além de ser dedicado à Comissão de serviço que o autor efectuou no Comando do DFE - Destacamento de Fuzileiros Especias n.º 1, entre 1964 e 1966 em Moçambique, apresenta uma grande acervo de relatórios de operações desta Unidade de Fuzileiros, que ocupa metade do livro.
          Aborda ainda num contexto político-militar a Guerra Colonial; a Marinha Portuguesa em África; o Teatro de Operações em Moçambique; os erros praticados na guerra a nível de Comandos; a recriação dos Fuzileiros, o recrutamento de efectivos e constituição de Unidades de Fuzileiros, a especialidade de Fuzileiros Especiais e a criação da sua Escola de no qual o autor esteve directamente relacionado!

03/02/17

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 5.ª PARTE

AFUNDAMENTO DO NAVIO

          A 20 de Dezembro de 1993, já não dispondo de condições operacionais, desprovido de equipamento e determinado o seu desmantelamento, é abatido ao efectivo dos navios da Marinha de Guerra Portuguesa, observando o disposto numa Portaria do MDN de 12 de Janeiro de 1994, sendo substituído nas funções que desempenhava pelo actual Navio-Reabastecedor NRP “Bérrio”.
           O Oficial Superior que exerceu o 2.º Comando do navio, desempenhando à data funções no Grupo n.º 2 de Escolas da Armada no Alfeite (G2EA), tratou de apetrechar a Sala de Reuniões do Comando do G2EA com a estante da Camarinha do Comandante do "São Miguel", uma vigia dessa Camarinha, mesa e cadeiras da Câmara de Oficiais, Escudete do Navio e uma Placa com o nome dos 03 Comandantes que o navio.


Mobiliário do NRP "São Miguel" no G2EA (fotos cedidas por Cte. Brito Subtil)

           Entre 20 e 23 de Outubro de 1994, o navio foi carregado no Cais da NATO na Trafaria com cerca de 2.200 toneladas de munições de diversos calibres e explosivos obsoletos ou com a validade largamente ultrapassada, oriundos de paióis da INDEP e dos 03 ramos das FA’s (a maioria pertencia ao Exército Português), oriundos da apelidada “cintura explosiva de Lisboa”, rebocado para alto-mar pelo Rebocador "Alpena" da empresa Rebocalis e afundado a 23 de Outubro de 1994, por recursos à abertura das válvulas do fundo, a 215 milhas da costa continental portuguesa e cerca de 4.000 metros de profundidade no Oceano Atlântico.
           De salientar que a designada “cintura explosiva de Lisboa” apresentava um grave e sério perigo para as pessoas e seus bens, vizinhos das localidades onde se situavam os respectivos paióis, sendo à muito do interesse do Estado resolver o problema.
           Tratando-se de uma tarefa bastante difícil e complexa pelo elevado risco que apresentava, efectuou-se uma operação que exigiu amplos conhecimentos técnicos e um planeamento prudente (realçando-se que foi uma mais-valia o facto de ter sido elaborada com o apoio de um Oficial Superior que conhecia bem o navio, tendo sido o Imediato da 2.ª guarnição), sendo que a fase da estiva dos materiais a bordo, que competiu à Marinha em virtude das incompatibilidades entre os vários explosivos, decorreu com limitado espaço temporal de execução, tendo sido sujeita a alterações de planeamento de última hora, para embarque de carga do Exército Português não prevista inicialmente.
          Tal última carga (cerca de 150 paletes de cunhetes de munições) já não foi condicionada nos porões do navio, não só observando-se pela falta de espaço, mas também pela necessidade de serem cumpridas as regras de incompatibilidade dos explosivos, assim como a obrigatoriedade de flutuabilidade negativa, decidindo-se transportar no convés de carga do navio, dado entender-se não alterar a segurança das condições de estabilidade do navio.
           Na fase final de afundamento, já com o navio posicionado no local pré-seleccionado, este começou adornar para Bombordo pelas 09:55, sendo que a operação em si estava a ser monitorizada por um avião de patrulha marítima P3 ORION da FAP, que registou o evento no sistema MPA, existindo também gravações do sistema STIR compiladas pela Fragata F330 “Vasco da Gama”.






Sequência de fotos do momento de adorno a Bombordo do navio (Fotos reunidas por José Manuel Marques)

          Pelas 10:45, já com o navio completamente adornado, ocorreu uma enorme explosão, poucos segundos depois de ter sido sobrevoado novamente pelo avião de patrulha marítima P3 ORION da FAP, presume-se devido a uma reacção química entre os explosivos e a água salgada, sendo que tal situação era já equacionada, face aos possíveis comportamentos aleatórios que um navio assume ao afundar-se.

Sequência de fotos do momento da explosão do navio (Fotos reunidas por José Manuel Marques)

          Dias depois deram à costa 08 cunhetes de ALG's / Dilagramas do Exército Português que haviam sido embarcado no NRP "São Miguel", sendo de mencionar que o facto de parte dos cunhetes estarem cheios de serradura, ou invés de areia como determinado, ofereceu flutuabilidade aos engenhos.
          De salientar que assistiram ao afundamento diversas personalidades a bordo de navios da Marinha Portuguesa que se encontravam distanciados a 03 milhas (Fragata “Vasco da Gama”, Fragata “Sacadura Cabral” e Navio-Balizador “Schultz Xavier”): o então Almirante Comandante Naval, alguns dos antigos elementos das guarnições do “São Miguel” entre outras personalidades.

21/01/17

ARTE MILITAR NAVAL - 09

          Regressando de novo à resenha "Arte Militar Naval", onde apresento os desenhos manuscritos de Luís Filipe Silva, escolhi para este artigo as Fragatas da classe "Bartolomeu Dias", navios de construção holandesa e adquiridos pela Marinha Portuguesa em 2006, entrando posteriormente ao serviço da Briosa respectivamente em 2009 e 2010, sendo a par das Fragatas da Classe "Vasco da Gama", os nossos únicos navios de combate de superfície.


Configuração das Fragatas da classe "Bartolomeu Dias"

Artigo sobre as FRAGATAS DA CLASSE "BARTOLOMEU DIAS":
http://barcoavista.blogspot.pt/2011/01/fragatas-da-classe-bartolomeu-dias.html

11/01/17

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 4.ª PARTE

A 3.ª GUARNIÇÃO DO NAVIO

          A 24 de Maio de 1990, realiza-se a bordo a entrega de Comando do navio, presidida a bordo pelo então Vice-Almirante Comandante Naval do Continente.


















Entrega do Comando do navio (Foto cedida por Cte. Brito Subtil)

             Entre 21 de Junho e 10 de Julho de 1990, efectuou missões logísticas nos Arquipélagos da Madeira e Açores, escalando Praia da Vitória, Ponta Delgada e Funchal.
          A 14 de Setembro de 1990, é montado um novo radar JRC-JMA 3525 (com sistema RASTERSCAN de digitalização de imagem) pela empresa Ondex, substituindo o radar KH 18/12, abatido ao navio através da Guia de Remessa n.º 119/90 de 17 de Setembro de 1990, devido à sua idade avançada e já muitas limitações (detecção de ecos somente a 08 milhas, avaria na marca móvel, inexistência de sobressalentes, etc).

MISSÕES EM 1991:

MISSÃO NA GUERRA DO GOLFO PÉRSICO:

         Entre 31 de Outubro de 1990 e 13 de Abril de 1991, no âmbito da colaboração da UEO (União Europeia Ocidental) nas operações de embargo ao Iraque decretadas pelo Conselho de Segurança da ONU, foi o único navio da Armada Portuguesa a participar quer no embargo quer na Guerra do Golfo de 1991.
          O principal motivo que originou a participação supracitada do navio, advém do facto de ser o então único navio da Marinha de Guerra Portuguesa que desempenhava as funções de “Navio de Apoio Logístico” e, que por inerência preenchia o requisito que a 30 de Agosto de 1990 o Governo Português no âmbito da colaboração com as forças da UEO no embargo decretado ao Iraque, decidiu disponibilizar - um Navio de Apoio Logístico e de não participar ofensivamente com tropas destacadas no TO, conforme apelo de envio de reforços por parte do então Secretário de Estado Norte-americano James Baker aos Aliados da NATO.















"São Miguel" atracado na  Doca da Marinha (Foto cedida por Luís Miguel Correia)

          Efectuou duas viagens de ida e volta do Porto militar de Marchwood, em Southampton - Reino Unido, para o Porto de Al-Jubail - Arábia Saudita, transportando diverso material militar do Exército britânico e kuwaitiano, no mais curto prazo de tempo, para as suas tropas estacionadas na Arábia Saudita, missão designada por «Operação Granby» nome de código atribuído pelos britânicos à operação de transporte logístico para as suas forças no Golfo Pérsico destacadas na “Operação Tempestade no deserto”:
- Material electrónico;
- Equipamento de Engenharia Militar (24 secções de pontes);
- Peças do carro de combate britânico CHIEFTAIN Mk5 MBT;
- 700 paletes de lagartas de carros de combate;







































Faina de carregamento do porão com paletes de lagartas de carros de combate (Foto de Cte. Rodrigues da Conceição)

- 06 canos de peças de artilharia de 120mm da ROYAL ORDNANCE;
- 200 paletes de rações de combate;
- 187 paletes de pratos de comer;
- 163 paletes de Heliportos LONG MARSTON;
- 79 paletes de redes de camuflagem;
- 797 pneus GOODYEAR de camiões pesados;
- Vedações para campos de prisioneiros;
- Dezenas de paletes com munições de 120mm HESH / APDS da ROYAL ORDNANCE;
- 06 jipes LAND ROVER de ½ toneladas da engenharia britânica;
- 01 camião BEDFORD de 4 toneladas da engenharia britânica.
          O navio zarpou para a sua 1.ª viagem às 16:30 do dia 31 de Outubro de 1990 da Doca da Marinha, navegando 900 milhas até Marchwood, pouco antes da Fragata F483 NRP "Sacadura Cabral" destacada para a NAVOPFORMED no Mar Mediterrâneo, na presença em terra de entidades oficias políticas e militares, Banda da Armada, comunicação social, familiares, amigos e camaradas da guarnição.
          Já no Rio Tejo, foi saudado pela Nau "St.ª Maria" e dezenas de embarcações que apitaram e lançavam jactos de água, demonstrando a solidariedade e camaradagem dos Homens do Mar!
          Na primeira viagem, a missão foi cumprida em 60 dias (31 de Outubro a 29 de Dezembro de 1990), sendo a missão noticiada de certa forma negativa pela comunicação social nacional, não obstante as declarações abonatórias verbalizadas pelo então próprio CEMA e diversas autoridades militares britânicas que, satisfeitos com o desempenho do navio, solicitaram novamente a sua colaboração para outra viagem igual.












Fundeado em Cascais, já carregado, a caminho da 1.ª viagem ao Golfo Pérsico (Foto cedida por Cte. Paulo Breia)

          Por questões de precaução e segurança a bordo, durante as viagens a guarnição foi reforçada (09 Oficiais, 10 Sargentos e 49 Praças), sendo todos apetrechados com fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ de fabrico inglês, guarnição que sempre se pautou por estar mentalizada, preparada e moralizada para o cumprimento da missão.






















Elementos da guarnição com fato de protecção individual para guerra NBQ (foto cedida por Emanuel Almeida)

          Conjuntamente o nível de segurança foi aumentada, por iniciativa do Aspirante da Reserva Naval na qualidade de Chefe do Serviço de Artilharia, assim quando a navegar eram colocadas 04 espingardas HK G3 e respectivas munições na Ponte de Comando, quando atracado as armas eram distribuídas pelo Grupo de Serviço, bem como 02 pistolas P38 WALTHER ao Oficial e Sargento de dia, como medida dissuasora e por forma a reforçar o controlo da entrada e saída a bordo de pessoas e bens estranhos à guarnição (estivadores, carregadores, militares, fornecedores, agentes, amarradores, etc).
          Foi igualmente elaborado e aprovado pelo Comando do navio em Setembro de 1990 (para em caso de necessidade), um Plano de Destruição do Navio por recurso a explosivos (cargas de demolição e explosivo plástico PE4A montados no costado dos três porões e casa das máquinas), com a colaboração do Centro de Instrução de Minas e Contra-Medidas.
          Durante a faina de descarga no Porto de Al-Jubail - Arábia Saudita a guarnição chegou a envergou os fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ (nuclear, biológico e química) mais de 02 horas, devido a um alarme de ataque iraquiano ao local (onde se encontravam concentravas várias forças da coligação), motivado pelo lançamento de 03 mísseis balísticos terra-terra SCUD-B de fabrico russo pelo Iraque, mas desconhecendo-se o tipo de ogiva.
          De realçar que os fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ eram de fabrico inglês e distintos dos habitualmente utilizados na Marinha Portuguesa, o que obrigou a algum treino da guarnição a empregar os mesmos no mais curto espaço de tempo em caso de necessidade.

























O Oficial Imediato apetrechado com fato e equipamento de protecção individual para guerra NBQ (foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          É ainda de referir que o navio encontrava-se na situação de «prontidão de 48 horas» desde 12 de Setembro, as autoridades inglesas enviaram um Oficial da RFA - Royal Fleet Auxiliary para visitar detalhadamente o navio e as suas características e antes de zarpar procederam-se a algumas melhorias em determinados equipamentos do navio:
- Navegação, Comunicações e Limitação de Avarias;
- Montagem de chuveiros contra ataque NBQ;
- Estanquidade das áreas habitacionais;
- Pintura das superestruturas.
Deste modo, na fase de aprontamento para a Missão ao Golfo Pérsico, as ajudas electrónicas à navegação foram aumentadas pela montagem em Lisboa de alguns equipamentos a título de empréstimo:
- Receptor Satélite Raytheon GPS Navigator Raystar 920;
- Receptor Sait Navtex 2 - XH5123;
- Receptor Facsimile Furuno DFAX;
- Girobússola SPERRY Mk27.
          Foi ainda instalado o radiogoniómetro Ondex Tayo TP - C338HS e um novo VHF SAIT RT 2048.
          A 09 de Abril de 1991, antes de zarpar de regresso definitivo a Portugal ocorre a despedida formal a bordo por parte das autoridades britânicas, representadas na pessoa do Brigadeiro Director-Geral dos transportes militares do MDN britânico, que deslocou-se de propósito de Londres para agradecer a colaboração do navio na "Operação Granby", honrando a mais velha aliança militar do mundo!




















Despedida das autoridades britânicas da guarnição do "São Miguel" (Foto de Cte. Rodrigues da Conceição)

          Na manhã do 13 de Abril de 1991, chega a Portugal atracando pelas 11:00 no cais n.º 08 da BNL, após 06 meses de missão, sendo recebido pela Banda da Armada, familiares, camaradas, amigos, um representante do MDN, Oficiais de serviço ao CNC e EMA.





















Oficiais do navio dotados de turbantes coloridos (Foto cedida or Cte. Rodrigues Pereira)

          De salientar a presença de poucos órgãos de comunicação social e o facto de ter sido determinado superiormente atrasar-se a sua chegada, fora da barra, com o intuito de não ocorresse em simultâneo com a cerimónia presidida pelo então Primeiro-Ministro e presença do então Ministro da Nacional da entrega do Estandarte à Fragata F330 NRP "Vasco da Gama".
          Durante esta missão navegou cerca de 2.700 horas (correspondente a cerca de 100 dias), percorreu cerca de 28.000 milhas (1,5 o diâmetro do planeta no Equador), transportou 3.200 toneladas ao todo e escalou os Portos de Lisboa, Southampton, Marchwood, Potsmouth, Gibraltar, Marselha, Palma de Maiorca, Pireu (Atenas), Alexandria, Port Said, Port Suez, Al Jubayl, Damman e Fujhairah.























Rota efectuada pelo "São Miguel" (Imagem cedida por Cte. Rodrigues da Conceição)






















Atracado em Port Said, em frente da sede da Companhia do Canal do Suez (Foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)





















O "São Miguel" no Canal do Suez (Foto cedida por Rogério Marques)

          A 15 de Abril de 1991, findo as missões na guerra do Golfo Pérsico o Comandante do navio concede um louvor colectivo à guarnição do "São Miguel" ao abrigo do art.º 21 do RDM (posteriormente publicada na OA/1), tecendo elogios a dedicação, eficiência e esforço tendo em linha de conta as carências e limitações do navio, assim como o cumprimento das missões com uma elevada taxa de operacionalidade e navegação sem período de descanso no teatro de guerra.























Guarnição do navio (Foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          Diversas entidades militares e civis estrangeiras assinaram o Livro de Honra do navio e, a guarnição do navio deste período (3.ª guarnição) criou um autocolante alusivo à missão ”Golfo Pérsico / 90 – 91 / Estivemos lá”, baseado num concurso de ideias efectuado a bordo, igualmente durante vários anos reunia-se anualmente no dia 13 de Abril para um almoço de confraternização.

























Autocolante  alusivo à missão (Imagem cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          Ainda em 1991, o Comando do Navio solicitou a atribuição da Medalha Comemorativa das Campanhas e Comissões Especiais das FA's Portuguesas relativamente ao destacamento do “São Miguel” na Guerra do Golfo, mas não obteve Despacho, somente a partir de 2015 começou a ser atribuída por requerimento pessoal dos elementos da guarnição interessados.
          A título de curiosidade, a tripulação do avião Hércules C-130 da FAP também destacado para o TO foi agraciada individualmente com a Medalha de ouro de Serviços Distintos do MDN, pouco depois do seu regresso a Portugal e, o governo britânico atribuiu a todos os elementos militares e civis participantes na “Operação Granby” (estrangeiros inclusivo), uma medalha comemorativa.

28/11/16

LEITURAS À VISTA - 10

          Dando seguimento à resenha “LEITURA À VISTA”, para a 10.ª edição, recomendo o livro: "Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida", da Editora Caminhos Romanos.

          Livro "A presença Portuguesa na Guiné, História Politica e Militar (1878 - 1926)" foi distinguido com o PRÉMIO FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN - História da Presença de Portugal no Mundo.

Sinopse:
A Presença Portuguesa na Guiné – História Política e Militar (1878-1926).
Prof. Doutor Armando Tavares da Silva

          Livro dedicado à presença portuguesa nas terras da Guiné. São ainda desconhecidos no nosso País muitos aspectos do que foi tal presença. A falta de estudos sobre essa presença é particularmente notória no período que decorre entre 1879 – ano em que a Guiné ficou administrativamente separada de Cabo Verde, constituindo uma província ultramarina autónoma – e o fim das campanhas ou operações militares ditas de “pacificação” do território.

          Depois dos estudos de Senna Barcellos datados de 1899 a 1913 e da publicação em 1938 da História da Guiné (1418-1918) de João Barreto, nenhum outro trabalho, de autor nacional, surgiu, da índole destes dois, procurando dar uma ideia precisa e de âmbito vasto, não só temporal mas também substantivo, dos factos que, no seu conjunto, poderiam contribuir para o conhecimento do que foi a história da Guiné.
          Entre esses factos encontram-se as operações militares que durante várias dezenas de anos se sucederam no território. Neste trabalho relata-se com bastante pormenor estas operações, dando realce às motivações que levaram as autoridades a empreendê-las, as dificuldades na sua execução, os seus resultados e consequências. 
          Pretende-se, deste modo, contribuir para melhor conhecimento dos factos e situações que moldaram a vida do território durante um período de quase 50 anos: desde as vésperas da constituição da Guiné como província independente de Cabo Verde até ao ano de 1926, Ao longo dos 32 capítulos do livro vai surgindo, com maior ou menor intensidade, um número sem fim de personagens activas na vida do território, governadores, militares, ministros, régulos, administradores, comerciantes, entre outros.

          O livro contem um glossário, uma bibliografia seleccionada, um apêndice com cerca de 30 fotografias dos navios da Armada que durante o período em análise permaneceram na Guiné, além de um conjunto da mais de 20 cartas relativas às operações militares empreendidas, com a indicação dos itinerários seguidos pelas colunas militares, a maior parte reprodução de originais.
          Assina o Prefácio o Senhor Almirante Nuno Vieira Matias, Presidente da Academia de Marinha.

Título: A presença portuguesa na Guiné. História política e militar (1878-1926)
Autor: Armando Tavares da Silva (Prof. Doutor)
Prefácio: Nuno Vieira Matias (Almirante)
Impressão: Norprint – Santo tirso.
ISBN: 978-989-8379-44-3
Depósito legal: 410 453/16
972 páginas
83 Fotografias
26 mapas
Editor: Caminhos Romanos
PVP: 56€
Porto, Junho 2016

Encomendas:
www.caminhosromanos.com
editora@caminhosromanos.com 
vendas@caminhosromanos.com

28/10/16

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 3.ª PARTE

A 2.ª GUARNIÇÃO DO NAVIO

1988:

          A 04 de Abril de 1988, realiza-se a bordo do navio, atracado na Doca da Marinha, a Rendição de Comando presidida pelo então Vice-Almirante Comandante Naval do Continente.

Rendição de Comando do "São Miguel" (Foto cedida por Cte. Brito Subtil).

          Tal como muitas Unidades Navais o navio possuía uma mascote, no caso um cão arraçado de “Setter irlandês” e de nome “Tridente” que, com menos de 04 meses destacou para o navio com a sua 2.ª guarnição, levado pelo seu Comandante e recebendo o posto de “Grumete honorário”.

O "Tridente" na Ponte de Comando e em exercício de Postos de Abandono do navio (Fotos cedidas por Cte. Brito Subtil).

          De salientar que a Reserva Naval também contribuiu com Oficiais do Curso de Formação de Oficiais Reserva Naval, para a 2.ª e 3.ª guarnição do navio, destacando Oficiais Subalternos (Aspirantes) da classe de Marinha, respectivamente do 59.º CFORN de 1988 (2.ª guarnição) e do 64.º CFORN de 1990 (3.ª guarnição).
          A 30 de Junho de 1988, transportou 140 jovens e as suas 110 embarcações entre Funchal e Porto Santo, durante as regatas comemorativas do Dia da Marinha realizadas em Porto Santo.

O "São Miguel" com os 140 jovens e 110 embarcações a bordo (Foto cedida por Luís Miguel Correia).

          Durante os dias 02 e 14 de Junho de 1988, participou no Exercício nacional “ALBATROZ 88”, efectuando um trânsito para a Madeira juntamente com a Força Naval e uma Operação Anfíbia na Ilha de Porto Santo, com participação de Fuzileiros com os seus LARC’s embarcados e de meios aéreos da FAP.
          Entre 25 de Junho e 06 de Julho de 1988, executou uma missão logística à Madeira, por forma apoiar a GNR e a Banda da Armada, dado serem participantes no Tatoo Militar a realizar no Funchal, colaborou ainda em actividades do Dia da Marinha no Porto Santo.
          Durante a sua estadia no Arquipélago da Madeira desembarcou na Ilha Deserta Grande 02 viaturas anfíbias LARC-5 dos Fuzileiros e por estes guarnecidas, com o objectivo de descarregar uma casa pré-fabricada para utilização dos Guardas do Parque Reserva Natural.

LARC-5 dos Fuzileiros na Ilha Deserta Grande com o "São Miguel" ao largo (Foto cedida por Revista da Armada).

          Entre 25 de Julho e 20 de Agosto de 1988, realiza uma Missão Logística à Madeira, Açores e novo regresso à Madeira, apoiando FA’s transportando carga em contentores, viaturas e pessoal militar, escalando Funchal, Ponte Delgada, Horta e Praia da Vitória.
          Entre os dias 23 de Setembro e 01 de Outubro de 1988, realizou o lançamento ao mar de 3.200 bombas fora do prazo de validade num total de 500 toneladas da FAP.
          Em Dezembro de 1988, efectuou uma missão logística à Região Autónoma da Madeira e dos Açores, transportando 800 toneladas de material dos 3 ramos das FA's inclusivo 27 contentores, 16 viaturas pesadas e 26 médias.

1989:

          Entre finais de 1988 e 26 de Junho de 1989, o navio esteve em Docagem e Revisão Intermédia, na doca de Rocha de Conde d’ Óbidos, do dia 26 e 29 de Junho de 1989, no âmbito do seu regresso ao serviço, realiza um PTB com a Corveta “João Coutinho” e o Navio-Balizador “Schultlz Xavier”.

"São Miguel" doca de Rocha de Conde d’ Óbidos.

          No período compreendido entre 06 de 31 de Julho de 1989, efectuou 04 operações de lançamento ao mar de munições degradadas do Exército Português, num total de 4.000 toneladas.
          Entre 23 e 30 de Setembro de 1989, participou às ordens do Comando Naval da Madeira no exercício conjunto "ZARCO 89", procedendo ao transporte de pessoal, viaturas e material do Exército Português entre Funchal - Porto Santo - Funchal.
          Entre 04 de Setembro e 04 de Outubro de 1989, efectuou uma missão logística às Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, escalando Funchal / Porto Santo / Horta / Praia da Vitória e Ponta Delgada, transportando na ida 4.370m3 toneladas de material dos 3 ramos das FA's (72 viaturas, 83 contentores e 118 pequenos volumes), no regresso ao continente transportou 01 lancha da Marinha Portuguesa e 03 aviões caça-bombardeiro ligeiro de ataque ao solo FIAT G-91 da FAP.

FIAT G-91 da FAP a bordo do "São Miguel" (Foto cedida por Cte. Brito Subtil).

          Entre os dias 11 e 12 de Outubro de 1989, o navio atraca no Cais Naval do Ponto de Apoio Naval de Tróia (PANTROIA), onde por iniciativa do Comando do navio embarca a bordo poitas de cimento de 150 toneladas, o que permite ajudar a resolver um dos principais problemas do navio, estabilidade quando navega vazio e passar a dispor de lastro fixo.
          A 21 de Outubro de 1989, desloca-se até Norfolk - EUA com o desiderato de realizar uma missão logística para o Exército Português (que custeou a operação) efectuando o transporte de 420 toneladas de material, constituído por:
- 36 Camiões tractores M-818;

Camiões tractores M-818 desembarcado do "São Miguel" na Base Naval do Alfeite (Foto cedida por Cte. Brito Subtil).

- 05 Viaturas blindadas ligeiras de lagartas M-106 A1 porta-morteiro;
- 01 Viatura blindada ligeira sobre rodas de reconhecimento CADILLAC GAGE V-150 S COMANDO 4x4;

Camiões M-818, blindado V-150 e blindado M-106 a bordo do "São Miguel" durante a estiva em Norfolk - EUA (Foto cedida por Cte. BritoSubtil).

- 161 Caixotes de carga geral (20 toneladas do Exército Português e 01 tonelada da Marinha Portuguesa.
          As 42 viaturas pesadas foram oferecidas, sendo que toda a carga veio estivada nos porões, ficando sobrante apenas 1/6 do espaço, o navio regressou a Portugal a 20 de Novembro do mesmo ano, tendo navegado 7.200 milhas.

1990:

          Entre os dias 03 e 05 de Janeiro de 1990, participa no exercício anfíbio dos Fuzileiros ”ALFA”, transportando-os para a área de exercício.

COMBATE À POLUIÇÃO EM PORTO SANTO:

          Entre 20 de Janeiro e 12 de Abril de 1990, após ter sido detectado uma “Maré Negra” por um avião C-212 AVIOCAR da FAP em missão de patrulha marítima, o “São Miguel” transportou material de combate à poluição para as acções de limpeza das costas Norte, Nordeste e Leste da Ilha de Porto Santo, devido à “Maré Negra” provocada pelo derrame de 25.000 toneladas de crude a 30 de Dezembro de 1989, na sequência de um rombo na proa do Petroleiro espanhol “Aragón”, proveniente das Ilhas Canárias.
          Procedeu ao transporte de crude recolhido em bidons para o Funchal e ao transporte de equipamento especial nacional e recebido da Suécia, entre o Porto de Leixões e Porto Santo.

O "São Miguel" atracado por estibordo em Porto Santo, durante a missão de apoio ao combate à poluição (Foto cedida por Cte. BritoSubtil).

          Pelo mesmo período transportou e desembarcou material para se efectuar à reconstrução da Casa do Parque Natural da Ilha Selvagem Grande, que fora destruída por acção do mar.

          Entre 14 e 18 de Maio de 1990, procede ao lançamento ao mar de munições da FAP (350 toneladas) e da Marinha Portuguesa (50 toneladas).

27/10/16

LEITURAS À VISTA - 09

          Continuando com  a resenha “LEITURA À VISTA”, para a 9.ª edição, recomendo o livro: "Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida", da Editora Caminhos Romanos.

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22/10/16

LEITURAS À VISTA - 08

          Retomando a resenha “LEITURA À VISTA”, no seu caso a 8.ª, recomendo o livro: "Duas Naus, um Cruzador ... e duas Fragatas", edição da Revista de Marinha.




          Como o próprio nome indica, é um livro que versa sobre o nome do Navegador Vasco da Gama nos navios da Marinha de Guerra Portuguesa ao longo dos tempos:
- O capítulo correspondente às duas Naus e ao Cruzador couraçado, trata-se de uma reedição do livro de Maurício de Oliveira;
- O capítulo relativo à primeira Fragata (F478) da classe britânica "BAY" que serviu durante o guerra colonial (1961 a 1971) ficou a cargo do Valm. Ferreira Barbosa;
- Por último sobre a Fragata que actual ostenta o nome (F330), da designada classe "Meko 200" que já possui 25 anos de serviço, contou com a contribuição de todos os Oficiais que exerceram o seu Comando e do seu actual Cte.
          A coordenação da obra e projecto editorial foi responsabilidade do Cte. Themes de Oliveira, dispõe ainda de uma nota biográfica do autor  inicial da obra Mauricio de Oliveira elaborada por Luís Miguel Correia.

          "A aquisição pelo Governo Português das três fragatas tipo MEKO 200 da classe VASCO DA GAMA, construídas na Alemanha e entregues no decurso do ano de 1991, trouxe significativas e acrescidas capacidades à Marinha de Guerra. Eram três excelentes navios, bem armados e equipados, ao nível das melhores unidades do seu tipo então existentes nas Marinhas Aliadas da NATO. 
          Estas unidades foram responsáveis pela introdução entre nós dos mísseis HARPOON e SEA SPARROW, dos decoys SRBOC e do sistema anti-míssil (CIWS) PHALANX, do helicóptero orgânico, de um sistema de combate computorizado, da transmissão de dados operacionais por link 11, de modernos equipamentos de comunicações e de um SICC (fornecido pela firma portuguesa EID), das turbinas a gás e de novos sistemas de limitação de avarias. 
          Mas não só... com efeito, trouxeram também, a par de novos desafios e de uma enorme motivação, a capacidade de comando de uma força naval, a organização interna por departamentos, introduziram diferentes rotinas e horários na vida de bordo, assim como novos conceitos tacticos, um maior rigor no treino, na avaliação e certificação de procedimentos, e provocaram alterações até na alimentação.
          Foi um programa demorado, que teve lugar nas décadas de oitenta e noventa do século passado e que culminou, no ano de 1991, com a entrega da primeira fragata, o N.R.P. VASCO DA GAMA (F-330) em 18 de Janeiro, nos estaleiros Blohm & Voss, em Hamburgo, e das fragatas N.R.P.’s ALVARES CABRAL (F-331) e CORTE REAL (F-332), respectivamente, a segunda, em 24 de Maio e a terceira, em 22 de Novembro do mesmo ano, nos estaleiros HDW, em Kiel.
          No global, podemos considerar que este programa decorreu de forma muito positiva e que a Marinha integrou muito rapidamente as suas novas unidades. Na realidade, os novos conceitos,  qual “revolução silenciosa”, em pouco tempo se estenderam a todos os navios da Esquadra, às Escolas Técnicas e à Escola Naval, às Direcções Técnicas e aos Serviços de Apoio, tendo sido abandonados os resquícios da “Marinha do Ultramar” do passado.
          A Marinha de Guerra Portuguesa tornou-se numa organização moderna, dos nossos dias, tecnologicamente evoluída, eficiente e eficaz. Os bons resultados consistentemente obtidos pelos navios da classe VASCO DA GAMA na frequência do Operational Sea Training, primeiro em Portland e depois em Plymouth, no Reino Unido, foram a consequência; de assinalar mesmo, em 2004, a classificação de GOOD atingida pela CORTE REAL, a melhor classificação atribuída nesse ano por aquele centro de treino inglês, o que então encheu de orgulho a Marinha Portuguesa, mas que terá passado praticamente despercebido do grande público.
          Uma declaração de interesses: pertenci, eu próprio, em 1988/1990 ao grupo de trabalho constituido pelos futuros Comandantes e Imediatos daqueles navios, que prepararam toda a normativa de bordo, e posteriormente assumi as funções de Comandante do N.R.P. CORTE REAL, desde a sua entrega até 9 de Junho de 1994.
         O tempo passa depressa! Na verdade, foi já há vinte e cinco anos que ocorreu a entrada ao serviço dos navios da classe VASCO DA GAMA, efeméride que se comemora com diversas iniciativas ao longo do ano de 2016.
          A ENN – Editora Náutica Nacional, Lda, não podia por isso deixar de se associar com todo o gosto, a estas comemorações, com a edição de uma obra, da responsabilidade da nossa chancela “Edições Revista de Marinha”. Trata-se da reedição do livro de Maurício de Oliveira, “Duas Naus e um Cruzador ...”, relativo aos navios que outrora tiveram o nome de VASCO DA GAMA. Com a coordenação do Cte. Orlando Themes de Oliveira, acrescentou-se uma nota biográfica do autor (Mauricio de Oliveira), elaborada por Luís Miguel Correia, bem como  dois novos capítulos, relativos às fragatas que posteriormente tiveram o mesmo nome.
          O capitulo relativo à Fragata VASCO DA GAMA (1961 / 1971  -  F - 478) , de origem inglesa – a ex-MOUNTS BAY, da classe BAY, foi redigido pelo V/Alm. João Nuno Ferreira Barbosa. O capítulo relativo à  unidade que hoje ostenta aquele honroso nome foi elaborado pelo Cte. Themes de Oliveira com base nos contributos dos sucessivos Comandantes daquela unidade. Ligamos assim o passado com o presente, numa simbiose que nos parece muito feliz e que esperamos possa também agradar aos nossos leitores. Esta edição comemorativa terá como titulo “Duas Naus, um Cruzador ... e duas Fragatas”."

11/10/16

ARTE MILITAR NAVAL - 08

          Na senda dos artigos sobre o antigo Navio de Apoio Logístico NRP "São Miguel" da Marinha Portuguesa, não podia deixar de apresentar na resenha "Arte Militar Naval", o respectivo desenho manuscrito de Luís Filipe Silva.



Configuração do Navio de Apoio Logístico NRP "São Miguel"

15/09/16

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 2.ª PARTE

A 1.ª GUARNIÇÃO DO NAVIO

1985
 
PRIMEIROS DIAS A BORDO:

          A guarnição do navio nos seus primeiros dias era somente constituída por 09 militares: Comandante (CFR), Imediato (Cten), Engenheiro EMQ (1.º Ten), Mestre (2.º SARG), 02 Sargentos e 01 Praça de máquinas e 02 Praças de manobra, padecendo da falta de energia, água e defensas que prejudicavam as condições de vida a bordo, sendo de salientar que o 1.º Ten EMQ fez parte das três guarnições do navio.
          A 11 de Novembro de 1985 decorre a apresentação da guarnição ao Cte. e, a 13 do mesmo mês é iniciada a descarbonização do gerador que se encontrava inoperacional. A 23 de Janeiro de 1986 é pintado o nome do navio e a 17 de Fevereiro o Cte. toma Posse do Comando do navio na tolda.

O navio com o nome atribuído (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          Com o escopo de colmatar os problemas o Comandante todos os dias deslocava-se até Unidades, Departamentos e Serviços, procurando obter apoio para a recuperação do navio, alcançando reduzidos empréstimos junto de camaradas, a título particular ou mesmo de modo clandestino.
          De salientar a título de curiosidade, que com o desiderato de encontrar uma solução para o problema da falta de defensas, o Mestre após solicitação do Comandante para resolução do dilema, adquiriu por sua iniciativa e custo (100$ Escudos) um enorme pneu de camião numa Bomba de Gasolina, que muito contribuiu para a moral da pequena guarnição, juntamente com recepção de energia de terra.
          Entretanto melhorou-se o aparelho dos paus de carga e os circuitos hidráulicos, conseguindo-se que os paus aceitassem alguma carga mas sem confiança devido aos derrames do óleo e à degradação do material.
          Mais tarde, foram trazidas para bordo pelo Comandante, Mestre e 02 Marinheiros duas grandes defensas constituídas por um tronco ferrado com dois pneus e amarretas de suspensão, recuperadas de um monte de material diverso e abandonado no cais, substituindo a defensa do Mestre que entretanto foi guardada no Porão (n.º 3) do Comandante.

PRIMEIRA SAÍDA EXPERIMENTAL:

          A 12 de Março de 1986 decorre o 1º almoço a bordo (caldo verde e bacalhau cozido), a meio da tarde do dia seguinte, ainda com as cores da CNN (à excepção da chaminé), zarpou para a sua 1.º saída experimental no Mar, navegando para Sul a caminho do Porto de Portimão.

O "São Miguel" ainda com as cores da CNN (Foto cedida por Luís Miguel Correia)

          De realçar que:
- No dia anterior teve um problema com a máquina em frente à Torre de Belém, optando por fundear no Dafundo, onde recebeu peças do Arsenal do Alfeite para proceder à recuperação do material avariado;
- A guarnição (28 militares) ainda não tinha efectuado nenhum treino de carga, exercícios, nem tinha formação de estiva e transporte;
- O Oficial (CFR) destacado para exercer o Comando do navio não estava habilitado com o Curso de Comandante do CITAN;
- Em termos de autonomia estava abastecido para 08 dias (diesel / nafta / água doce / alimentos), o remanescente (luvas de cabedal, capotes, tintas, papel higiénico, tintas, lanternas, binóculos, defensas, etc) foi cedido a título de empréstimo por camaradas de Corvetas, Fragatas e unidades terrestres a pedido do Comandante, Oficiais e Sargentos do “São Miguel”, em virtude da anterior tripulação civil do “Cabo Verde” ter removido tudo, tendo inclusivo desmantelado o quadro de manobra da máquina e retirado os manuais do navio, deixando somente alguns manuscritos em sueco, sem esquemas ou figuras;
- Na noite do dia 13 de Março de 1986, quando navegava na Latitude de Sines teve uma avaria no gerador ficando sem energia, existindo uma única lanterna a bordo, guardada na Ponte de Comando;
- Somente tinha a chaminé do navio pintada com a cor cinzenta da Armada (devido a não haver tinta para mais), contrastando com as restantes cores do navio utilizadas pela antiga CNN, ficando só mais tarde completamente pintado com as cores da Armada na Ilha de São Vicente - Cabo Verde, onde se procedeu à pintura de parte dos paus de carga e Pau Real;

O "São Miguel" ainda com os paus de carga e pau real pintados com as cores da CNN (Foto cedida pelo SIRP do GABCEMA)
 
- Atracou no Porto de Portimão no dia 19 de Março de 1986, sem auxílio de rebocador, rodando no Rio Arade frente ao cais, tendo-se registado na leitura do tubo da sonda esta “veio molhada” com água doce, devido à parte superior do tanque da aguada estar enfraquecida e ter furado.
          Durante esta 1.º saída experimental, o navio atracou no cais do PANTROIA no dia 13 de Março e, no dia seguinte facultou boleia até Lagos - Algarve a um 1Ten FZ da Reserva Naval que frequentava o último ano do 5.º COF a decorrer na Escola Naval, que se encontrava de momento destacado no PANTROIA como Observador num exercício do então BRD - Batalhão Reforçado de Desembarque.
          Chegado a destino, fundeou ao largo de Lagos e no âmbito do espírito do "botão de âncora" e dos necessários testes a efectuar ao material a bordo, a baleeira motorizada foi arriada para transportar o Oficial Subalterno FZ uniformizado a rigor (Boina azul-ferrete dos FZ's, fato de camuflado, bota de combate e mochila militar às costas) até ao cais da cidade por forma a reunir-se à sua família que se encontrava de férias na localidade.
          No que concerne a combustíveis, o navio tinha capacidade para 347,7 toneladas, utilizando nafta para navegação corrida e sem alterações sensíveis de velocidade, atingindo 14,5 nós de velocidade máxima e 12 nós em velocidade de cruzeiro; utilizando diesel podia alterar a velocidade e fazer manobras diversas, atingindo 12 nós de velocidade máxima e 11 nós em velocidade de cruzeiro.

1986

          Em Abril de 1986, atracou pela 1.ª vez no Porto de Leixões (Doca n.º 1), ainda durante o mesmo ano efectuou diversas missões de transporte.
          Em Maio participa no "Dia da Marinha" na Madeira transportando diverso material da Marinha e do Exército Português:
- Equipamento de comunicações, viaturas militares [viaturas ligeiras todo-o-terreno, viaturas blindadas e obuses de artilharia], material de guerra;



Jipe todo-o-terreno do Exército Português (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
Viatura blindada de transporte de tropas M-113 do Exército Português (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
Obus de artilharia "Oto Melara" de 105mm do Exército Português (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)

- Material do Instituto de Socorros a Náufragos, da Cruz Vermelha Portuguesa e da UCCLA;
- Produtos alimentares, carga congelada, material diverso de apoio às populações;
- Um cavalo de um Major de Cavalaria do Exército Português de Lisboa para o Funchal, num contentor de madeira em Maio de 1986;
- Uma viatura pesada com contentor itinerante de divulgação da Marinha.

Viatura pesada com contentor itinerante a ser preparada para ser carregada a bordo do navio (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          Entre 16 e 28 de Junho de 1986, realiza a sua primeira Missão Logística à Ilha da Madeira apoiando Forças Armadas.
          Destaque para 02 lançamentos ao mar de munições obsoletas em Julho de 1986, uma das tarefas para o qual o navio foi destacado pela Armada após aumento ao efectivo, atendendo ao Plano de Forças da Marinha.
          Na 1.ª vez, entre os dias 11 e 13 de Julho de 1986, após ter carregado no Cais do Portinho da Costa 966 toneladas de munições:
- 100 toneladas oriundas da Armada, sendo que 12 toneladas eram material diverso;
- 866 toneladas provenientes da Região Militar de Lisboa (Quartel de Beirolas do Exército Português) compreendendo munições inertes de 75mm de Carros de Combate, granadas de mão, espoletas, munições contendo fósforo e torpedos bengalórios;

Camiões DAF do Exército Português a aguardar a estiva das munições obsoletas transportadas (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
- No lote de munições do Exército Português, estavam também incluídas munições da PSP, GNR, Guarda Fiscal e INDEP;
- O lote do Exército Português foi transportado em comboios de camiões Mercedes e DAF, sendo sempre escoltados durante todo o trajecto, com trânsito condicionado, atravessando a Ponte 25 de Abril entre as 02 e 04 horas da manhã; posteriormente enquanto aguardavam a sua vez de descarregar, estacionados na berma da estrada de acesso ao Cais do Portinho da Costa, eram regularmente regados por viaturas auto-tanques do Exército Português, com o desiderato de evitar explosões por aquecimento térmico;

Camiões do Exército aguardar ordem para entrar no Cais do Portinho da Costa (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
- Durante toda a missão, a guarnição do navio teve ajuda para a faina do lançamento ao mar de 12 Soldados e dum Aspirante como Oficial de ligação do Exército Português;

Militares do Exército Português apoiar na estiva das munições obsoletas (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa) 

- Na fase propriamente de lançamento ao mar das munições, executada de forma manual, verificou-se a ocorrência de alguns rebentamentos submarinos;

Lançamento manual ao mar de munições obsoletas (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
- Apesar de uma Corveta ter sido destacada pelo Comando Naval do Continente para escoltar e prestar apoio ao “São Miguel”, durante o período de lançamento das munições ao mar, nunca chegou a desamarrar do Porto de Leixões, tendo sido notória a sua falta por razões de segurança, atendendo à presença na área de navios de pesca (arrastões) japoneses e de um navio fábrica russo;
- Finda a missão o Comando do Quartel de Beirolas do Exército Português ofereceu ao navio 02 morteiros de 81 mm, colocados na Câmara de Oficiais.
          Na 2.ª vez, efectuou o lançamento ao mar de cerca de 700 toneladas munições obsoletas.


Lançamento ao mar com recurso a pau de carga de munições obsoletas (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa) 

          Entre 21 e 28 de Julho de 1986, participou no Exercício “ALBATROZ 86” na Costa Alentejana, integrado numa Task-Force sob comando do Navio-Reabastecedor A5206 “S. Gabriel”, transportando Fuzileiros que efectuaram um desembarque na Praia do Pinheiro da Cruz e, contribuiu para a avaliação da capacidade dos meios logísticos de apoio a execução de exercícios / operações anfíbias.






































Fuzileiros a efectuar exercícios físicos a bordo do "São Miguel" (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
1987

          De 27 de Março a Junho de 1987, o navio esteve pela primeira vez em docagem e fabricos na Setenave - Setúbal e, em Agosto do mesmo ano é editado a pagela de apresentação do navio pelo EMA para oferecer aos visitantes a bordo.

O navio em fabricos na Setenave (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 




























O Brasão de Armas do "São Miguel" (Imagem cedida por Cte. Brito Subtil)
 
          A 09 de Junho de 1987 apresenta-se ao serviço o Oficial Subalterno 2Ten Médico Naval, no mesmo mês apresenta-se também o Oficial Subalterno da Administração Naval (Chefe do Serviço de Abastecimento). É de realçar que 2Ten Médico Naval, além de assegurar o Serviço de Saúde a bordo, contribuiu com os seus conhecimentos de electrotécnia e de informática, orientando a instalação do sistema de vídeo (cedido pela Corveta “Jacinto Cândido”) e TV (03 televisões a preto e branco, retiradas das Corvetas) instaladas respectivamente na Câmara dos Oficiais, Câmara dos Sargentos e Refeitório das Praças.
          Previamente à partida para a missão de Ajuda Humanitária a Moçambique elaborou no seu computador (ZX SPECTRUM) um programa de estabilidade, com dados facultados pelo Comandante, Imediato, Engenheiro e responsáveis por espaços do navio, sendo de salientar que finda a missão o programa foi cedido ao Comando Naval do Continente, tendo sido melhorado e aplicado às Corvetas.
          Aquando da já citada missão a Moçambique realizou também um filme, onde constam registados os momentos mais gratificantes para a guarnição, tendo sido facultada uma cópia ao Estado-Maior da Armada.

MISSÃO DE AJUDA HUMANITÁRIA A MOÇAMBIQUE:

          Entre 31 de Agosto e 20 de Dezembro de 1987, realizar uma missão de Ajuda Humanitária a Moçambique, com a duração de 111 dias, 1.900 horas de navegação e percorrendo 22 mil milhas, transportando 3.500 toneladas de alimentos, roupa, medicamentos, material escolar, livros, material hospitalar e sementes seleccionadas oferecido pelo Governo Português, Câmara Municipal de Lisboa e Ordem Soberana de Malta.
 
Fase de carregamento de sacos a granel de leite em pó a bordo dos porões do "São Miguel" (1.ª Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa, 2.ª foto por Cte. Brito Subtil)
 
Fase de carregamento de carne de porco a bordo dos porões do "São Miguel" (1.ª Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa, 2.ª foto por Cte. Brito Subtil)
 
          O material começou a ser transportado da Doca da Marinha para o navio a 14 de Agosto, por pessoal do Exército Português sob orientação do então Imediato, tendo a particularidade de o transporte do material até ao cais e da sua estiva a bordo foi braçal.
          O navio zarpou desconhecendo os locais onde a mesma iria ser descarregada, em virtude do plano de descarga só ser decidido aquando da chegada a Maputo, após o governo moçambicano conhecer o conteúdo da oferta e porque além dos Portos de Maputo, Beira e Nacala também incluiria alguns núcleos populacionais ao longo da costa ainda não referenciados.
          Nesta viagem escalou respectivamente o Porto de Lisboa e a 12 de Setembro o Porto MOTBAY (Military Ocean Terminal Bayonne Newark) de New Jersey - EUA, para carregar os porões; realizou escalas técnicas em Horta - Açores, Fortaleza - Brasil e Cape Town e Durban - África do Sul, seguindo aposteriori directamente para Moçambique.

Foto registada por aeronave da Força Aérea da África do Sul (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          A título de curiosidade, aquando da escala do Porto MOTBAY, a 05 milhas antes de «entrar na rotunda» de “Ambrose Light” o navio contactou via rádio com a Unidade Naval da Guarda Costeira Norte-americana destacada para dar as boas-vindas e escoltar até ao local de atracação, a determinado momento solicitaram que o “S. Miguel” ligasse as luzes do navio dado não o identificarem.
          A situação ocorreu devido ao facto do navio não apresentar a silhueta tradicional de um navio de guerra e, ainda manter pintada a faixa vermelha fosforescente sobre as janelas da ponte a toda a sua largura (esta sinalética é obrigatória somente nos navios da navegação mercante que navegue nos EUA), faixa que só foi retirada aquando da Docagem e Revisão Intermédia, na doca de Rocha de Conde d’ Óbidos, entre finais de 1988 e 26 de Junho de 1989.
          A 27 de Setembro de 1987, decorre a tradição da Briosa “Festa dos Reis dos Mares” com o respectivo julgamento durante a passagem da linha.

Festa dos Reis dos Mares (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)

          Atraca em Moçambique a 28 de Outubro, sendo o 1.º Navio de Guerra da Armada a fazê-lo depois da independência, onde procedeu à descarga em vários locais da costa, utilizando nos que apresentavam mais difícil acesso, 04 lanchas anfíbias LARC-5 guar­necidas por 05 Fuzileiros da UAMA, que transportava a bordo.

"Foto de família" da guarnição do navio com a equipa de 05 Fuzileiros para a missão a Moçambique (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          De salientar que as LARC-5 chegaram à Doca da Marinha navegando pelos próprios meios, sendo içados para bordo mediante os paus de carga, sendo colocados no convés a vante da meia-nau do navio, mais tarde após reunião com o Imediato e com o Engenheiro foi decidido que no Porto da cidade da Horta procederia à mudança das viaturas para o porão, onde também se verificou o lastro do tanque 3C e atestou-se com 70 toneladas de gasóleo o navio.

O "São Miguel" atracado no Porto da cidade da Horta (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          Em Moçambique as LARC-5 foram carregadas e arriadas no mar junto à costa, próximo do local indicado pelo Governo Moçambicano, procedendo à entrega do material e permitindo a distribuição directamente às populações que devido a guerra refugiaram-se ao longo da costa, em locais que lhe proporcionavam segurança, algum bem-estar e subsistência, mas isolados e sem acessos rodoviários.
          Durante a estadia do navio em Moçambique, a guarnição teve a oportunidade de visitar alguns locais em Maputo e, o Serviço de Saúde prestou assistência médica e medicamentosa a elementos civis e militares moçambicanos, mas de forma discreta atendendo que não fazia parte dos planos da missão, ao ponto de ter esgotado o material clínico disponível em menos de 03 semanas, dado que as consultas ocorriam de manhã até à noite.

Elementos da guarnição após uma visita a um museu em Maputo (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)
 
          Na viagem de regresso a Portugal, atracou em Ana Chaves - São Tomé e Príncipe, descarregando cimento e material escolar, facultado pela Câmara Municipal de Lisboa, ao abrigo de acordos de cooperação estabelecidos na União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo-Asiáticas, fazendo de seguida uma escala técnica em S. Vicente - Cabo Verde.

Fundeado e amarrado de popa a 100 metros da costa de S. Tomé e Príncipe (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)

1988
 
PROJECTO DE TRANSFORMAÇÃO DO NAVIO:

          Em 1988, o Gabinete de Estudos da Direcção-Geral do Material Naval efectuou um projecto que previa o procedimento de fabricos e transformações no navio, a realizar no Arsenal do Alfeite, com o desiderato de dotá-lo também com as seguintes capacidade de transporte logístico:
- Alojamento extra para 120 pessoas / ou uma Força de Fuzileiros de escalão Companhia;
- Transporte de um núcleo de Estado-Maior para operações navais e/ou anfíbias;
- Convés de voo à popa para 01 helicóptero ligeiro;
- Centro clínico com sala de operações.
          Não obstante, o custo destes trabalhos e a idade do navio determinaram o abandono do projecto e, face à sua curta expectativa de vida operacional, voltou a realizar transportes logísticos no designado «Triângulo Estratégico» de Portugal Continental para os Açores e a Madeira.
          Curiosamente, tal projecto não previa a reformulação do sistema de cargas e descargas, nem do sistema de abertura e fecho de três porões, ambos obsoletos.
          Entre os dias 08 e 26 de Março de 1988, realizou uma Missão de Apoio Logístico a Unidades militares Forças Armadas sediadas na Madeira e Açores, transportando carga, viaturas e pessoal, escalando Funchal, Horta, Praia da Vitória e Ponta Delgada.
 
O "São Miguel" atracado no Porto do Funchal - Madeira (Foto cedida por Cte. Oliveira e Costa)